“Manifesto Incompleto para o Crescimento” de Bruce Mau.
- Luiz Mascaro
- 28 de mar. de 2025
- 7 min de leitura

O “Manifesto Incompleto para o Crescimento” foi escrito em 1998. Foi minha primeira tentativa de responder à pergunta: Como alguém sustenta uma vida criativa? A irmã da minha esposa estava produzindo uma pequena revista em Toronto e me convidou para contribuir. Eu estava fazendo o meu melhor para procrastinar, mas ela não desistia. Finalmente, percebi que havia algo em que eu estava pensando que talvez valesse a pena escrever. Eu tinha acabado de concluir a primeira “temporada” do meu trabalho e estava desfrutando de uma reputação internacional como um designer inovador. O arquiteto Frank Gehry — que foi um verdadeiro mentor para mim, não apenas como designer, mas também como pessoa — me chamou de lado para dizer: “Bruce, pouquíssimas pessoas que conheço sobreviveram ao que está acontecendo com você [ou seja, meu nível de sucesso] na sua idade. Concentre-se no trabalho, não na fama. O trabalho não se importa com você. Você não é famoso no trabalho.” Isso me fez pensar sobre o que seria necessário para ir além do sucesso passageiro e sustentar uma prática ao longo da vida. Refleti sobre meus próprios padrões de vida e trabalho e me perguntei: O que é realmente valioso aqui? Como esses padrões podem ser úteis para os outros? Podemos aprender com a cultura incomum de estúdio que criamos? Percebi que muitos dos meus contemporâneos estavam assumindo a responsabilidade pelas informações que produziam, mas não por seu impacto. Eles estavam comprometidos com a forma, mas não com o conteúdo. Entendi que a tarefa dos designers é menos informar as pessoas do que movê-las. Nosso papel é inspirar.
O “Manifesto Incompleto para o Crescimento” não foi escrito como um texto político pesado. Era simplesmente uma oferta, incompleta, de uma maneira de pensar sobre a vida criativa. Eu o apresentei pela primeira vez em uma conferência de design em Amsterdã. A reação me surpreendeu. Chee Pearlman pediu para publicá-lo na revista ID, a revista que ela estava editando na época. Fiquei surpreso quando este pequeno documento que escrevi se espalhou pelo mundo, com traduções para dezenas de idiomas. Desde então, ele tem sido usado como um projeto de design para um grande número de alunos e gerou uma infinidade de interpretações criativas, algumas delas vistas nas páginas anteriores. Eu experimentei em primeira mão o poder do Manifesto para implementar mudanças. “Manifesto Incompleto para o Crescimento” foi um protótipo poético inicial para o MC24, sem o rigor do processo e da metodologia que surgiram desde então.
1. PERMITA QUE OS EVENTOS MUDE VOCÊ.
Você tem que estar disposto a crescer. Crescimento é diferente de algo que acontece com você. Você o produz. Você o vive. Os pré-requisitos para o crescimento: a abertura para vivenciar eventos e a disposição de ser mudado por eles.
2. ESQUEÇA O BOM.
Bom é uma quantidade conhecida. Bom é aquilo em que todos concordamos. Crescimento não é necessariamente bom. Crescimento é uma exploração de recessos não iluminados que podem ou não render à nossa pesquisa. Enquanto você se apegar ao bom, nunca terá crescimento real.
3. O PROCESSO É MAIS IMPORTANTE QUE O RESULTADO.
Quando o resultado impulsiona o processo, nós só iremos para onde já estivemos. Se o processo impulsiona o resultado, podemos não saber para onde estamos indo, mas saberemos que queremos estar lá.
4. AME SEUS EXPERIMENTOS (COMO VOCÊ FARIA COM UMA CRIANÇA FEIA).
A alegria é o motor do crescimento. Explore a liberdade de lançar seu trabalho como belos experimentos, iterações, tentativas, ensaios e erros. Tenha uma visão de longo prazo e permita-se a diversão do fracasso todos os dias.
5. VÁ FUNDO.
Quanto mais fundo você for, maior será a probabilidade de descobrir algo de valor.
6. CAPTURAR ACIDENTES.
A resposta errada é a resposta certa em busca de uma pergunta diferente. Colete respostas erradas como parte do processo. Faça perguntas diferentes.
7. ESTUDE.
Um estúdio é um lugar de estudo. Use a necessidade de produção como desculpa para estudar. Todos se beneficiarão.
8. DERIVA.
Permita-se vagar sem rumo. Explore adjacências. Não tenha julgamento. Adie críticas.
9. COMEÇE EM QUALQUER LUGAR.
John Cage nos diz que não saber por onde começar é uma forma comum de paralisia. Seu conselho: comece em qualquer lugar.
10. TODO MUNDO É UM LÍDER.
O crescimento acontece. Sempre que acontecer, deixe que ele surja. Aprenda a seguir quando fizer sentido. Deixe qualquer um liderar.
11. COLHE IDEIAS. EDITE APLICATIVOS.
Ideias precisam de um ambiente dinâmico, fluido e generoso para sustentar a vida. Aplicações, por outro lado, se beneficiam do rigor crítico. Produza uma alta proporção de ideias para aplicações.
12. CONTINUE EM MOVIMENTO.
O mercado e suas operações têm uma tendência a reforçar o sucesso. Resista a ele. Permita que o fracasso e a migração façam parte da sua prática.
13. DESACELERE.
Dessincronize-se com os prazos padrão e oportunidades surpreendentes podem surgir.
14. NÃO SEJA LEGAL.
Cool é o medo conservador vestido de preto. Liberte-se de limites desse tipo.
15. FAÇA PERGUNTAS IDIOTAS.
O crescimento é alimentado pelo desejo e pela inocência. Avalie a resposta, não a pergunta. Imagine aprender ao longo da sua vida no ritmo de uma criança.
16. COLABORE.
O espaço entre pessoas trabalhando juntas é cheio de conflito, atrito, conflito, alegria, prazer e vasto potencial criativo.
17. ____________________.
Intencionalmente deixado em branco. Deixe espaço para as ideias que você ainda não teve, e para as ideias dos outros.
18. FIQUE ACORDADO ATÉ TARDE.
Coisas estranhas acontecem quando você vai longe demais, fica acordado por muito tempo, trabalha duro demais e fica separado do resto do mundo.
19. TRABALHE A METÁFORA.
Cada objeto tem a capacidade de representar algo diferente do que é aparente. Trabalhe no que ele representa.
20. TENHA CUIDADO PARA ASSUMIR RISCOS.
O tempo é genético. Hoje é filho de ontem e pai de amanhã. O trabalho que você produz hoje criará seu futuro.
21. REPITA-SE.
Se você gosta, faça de novo. Se você não gosta, faça de novo.
22. FAÇA SUAS PRÓPRIAS FERRAMENTAS.
Hibridize suas ferramentas para construir coisas únicas. Até mesmo ferramentas simples que são suas podem gerar caminhos de exploração inteiramente novos. Lembre-se, ferramentas amplificam nossas capacidades, então até mesmo uma pequena ferramenta pode fazer uma grande diferença.
23. FIQUE NOS OMBROS DE ALGUÉM.
Você pode viajar mais longe carregando as realizações daqueles que vieram antes de você. E a vista é muito melhor.
24. EVITE SOFTWARES.
O problema com software é que todo mundo tem.
25. NÃO LIMPE SUA MESA.
Você pode encontrar algo pela manhã que não consegue ver esta noite.
26. NÃO PARTICIPE DE CONCURSOS DE PRÊMIOS.
Simplesmente não faça isso. Não é bom para você.
27. LEIA SOMENTE AS PÁGINAS ESQUERDAS.
Marshall McLuhan fez isso. Ao diminuir a quantidade de informação, deixamos espaço para o que ele chamou de nosso "macarrão".
28. CRIE NOVAS PALAVRAS.
Expanda o léxico. As novas condições exigem uma nova maneira de pensar. O pensamento exige novas formas de expressão. A expressão gera novas condições.
29. PENSE COM SUA MENTE.
Esqueça a tecnologia. A criatividade não depende de dispositivo.
30. ORGANIZAÇÃO = LIBERDADE.
A verdadeira inovação em design, ou em qualquer outro campo, acontece em contexto. Esse contexto é geralmente alguma forma de empreendimento gerenciado cooperativamente. Frank Gehry, por exemplo, só consegue realizar Bilbao porque seu estúdio consegue entregá-lo dentro do orçamento. O mito de uma divisão entre 'criativos' e 'ternos' é o que Leonard Cohen chama de um "artefato encantador do passado".
31. NÃO PEÇA DINHEIRO EMPRESTADO.
Mais uma vez, o conselho de Frank Gehry. Ao manter o controle financeiro, mantemos o controle criativo. Não é exatamente ciência de foguetes, mas é surpreendente o quão difícil é manter essa disciplina, e quantos falharam.
32. OUÇA COM ATENÇÃO.
Cada colaborador que entra em nossa órbita traz consigo um mundo mais estranho e complexo do que qualquer um que poderíamos imaginar. Ao ouvir os detalhes e a sutileza de suas necessidades, desejos ou ambições, dobramos o mundo deles ao nosso. Nenhuma das partes jamais será a mesma.
33. FAÇA VIAGENS DE CAMPO.
A largura de banda do mundo é maior do que a do seu aparelho de TV, ou da Internet, ou mesmo de um ambiente totalmente imersivo, interativo, dinamicamente renderizado, orientado a objetos, em tempo real, simulado por computação gráfica.
34. COMETA ERROS MAIS RÁPIDO.
Essa não é minha ideia, eu peguei emprestado. Acho que pertence a Andy Grove.
35. IMITE.
Não tenha vergonha disso. Tente chegar o mais perto que puder. Você nunca chegará até o fim, e a separação pode ser realmente notável. Temos apenas que olhar para Richard Hamilton e sua versão do grande copo de Marcel Duchamp para ver o quão rica, desacreditada e subutilizada é a imitação como técnica.
36. CATÁLOGO.
Quando você esquecer as palavras, faça o que Ella fez: invente outra coisa... mas não palavras.
37. QUEBRE, ESTIQUE, DOBRE, ESMAGE, DOBRE.
38. EXPLORE O OUTRO LADO.
Grande liberdade existe quando evitamos tentar correr com o bando tecnológico. Não conseguimos encontrar a vanguarda porque ela é pisoteada. Tente usar equipamentos de tecnologia antiga tornados obsoletos por um ciclo econômico, mas ainda ricos em potencial.
39. PAUSAS PARA CAFÉ, VIAGENS DE TÁXI, SALAS VERDES.
O crescimento real geralmente acontece fora de onde pretendemos, nos espaços intersticiais — o que o Dr. Seuss chama de "lugar de espera". Hans Ulrich Obrist organizou uma vez uma conferência de ciência e arte com toda a infraestrutura de uma conferência — as festas, bate-papos, almoços, chegadas ao aeroporto — mas sem nenhuma conferência real. Aparentemente, foi um enorme sucesso e gerou muitas colaborações contínuas.
40. EVITE CAMPOS, PULE CERCA.
Limites disciplinares e regimes regulatórios são tentativas de controlar a vida criativa selvagem. Eles são frequentemente esforços compreensíveis para ordenar o que são processos múltiplos, complexos e evolucionários. Nosso trabalho é pular as cercas e cruzar os campos.
41. RISOS.
As pessoas que visitam o estúdio frequentemente comentam o quanto rimos. Desde que tomei conhecimento disso, uso isso como um barômetro de quão confortavelmente estamos nos expressando.
42. LEMBRE-SE.
O crescimento só é possível como um produto da história. Sem memória, a inovação é meramente novidade. A história dá ao crescimento uma direção. Mas uma memória nunca é perfeita. Toda memória é uma imagem degradada ou composta de um momento ou evento anterior. É isso que nos torna conscientes de sua qualidade como um passado e não um presente. Isso significa que toda memória é nova, uma construção parcial diferente de sua fonte e, como tal, um potencial para o próprio crescimento.
43. PODER PARA O POVO.
A brincadeira só pode acontecer quando as pessoas sentem que têm controle sobre suas vidas. Não podemos ser agentes livres se não formos livres.




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