Plano Municipal de cultura de Jaboticabal - Um pensamento para a próxima década.
- Luiz Mascaro
- 19 de mar. de 2025
- 6 min de leitura
(Este texto está em construção e necessita de correções) Fundada em 793, a cidade alemã de Wemding decidiu comemorar seu aniversário de 1.200 anos, em 1993, com uma obra de arte cuja apresentação nenhum dos seus 5.860 habitantes poderá presenciar. Isso porque a Zeitpyramide (Pirâmide do Tempo), composta por 120 blocos de concreto, segue um cronograma que determina a instalação de um bloco a cada dez anos. Quem passa pela cidade já pode contemplar os quatro grandes blocos das primeiras quatro décadas, e a conclusão da obra está prevista para o aniversário de 2.200 anos da cidade, no ano de 3183.

A aproximadamente 467 km ao norte da Pirâmide do Tempo, encontra-se a cidade de Halberstadt, onde, na igreja de São Burchardi, um antigo órgão de madeira está executando uma música bem diferente. E você não precisa ter pressa para acompanhar essa obra, que poderia ser uma trilha sonora perfeita para a construção da Pirâmide do Tempo: iniciada em 2001, está planejada para durar 639 anos. Composta em 1985, Organ²/ASLSP é uma peça de John Cage, na qual o compositor e teórico musical não especifica exatamente quanto tempo a obra deve durar, deixando essa decisão para os intérpretes, baseando-se na sugestão contida no nome da peça: As Slow as Possible – " tão lentamente quanto possível ". No aniversário de 85 anos do compositor, um grupo de músicos e filósofos decidiu dedicar o órgão da igreja exclusivamente à execução da peça. Como o instrumento foi datado de 1361, tendo 639 anos no início da execução, e utilizando a mesma lógica do dobro da idade aplicada na Pirâmide do Tempo, a obra, iniciada em 5 de setembro de 2001, será concluída no ano de 2640.

Invertendo os sinais, podemos observar exemplos localizados no passado.
A Sagrada Família , igreja modernista de Antoni Gaudí, teve suas obras iniciadas em 1882, e sua finalização está prevista para 2026. Somente em 2019, após 137 anos de construção e recebendo cerca de quatro milhões de visitantes anuais, a obra obteve autorização formal da prefeitura de Barcelona.

Alguns povos originários da América do Norte possuem um conceito temporal sobre os reflexos de suas ações no presente e seus impactos para as próximas sete gerações. Segundo sua tradição, os líderes e tomadores de decisão devem sempre considerar como suas ações afetarão as próximas sete gerações. Esse pensamento faz parte da Grande Lei da Paz , uma das constituições orais mais antigas do mundo.

No documentário O Povo Brasileiro , Darcy Ribeiro fala sobre suas conversas com Anakan Pukú , pertencente tribo Ka'apor, um dos povos do Xingu, que cita uma genealogia familiar com 1.100 nomes de seus antepassados. Uma tradição oral que pode relatar centenas de anos no passado.

Seja no futuro ou no passado, o tempo dos processos sociais, políticos, artísticos e culturais é diferente do nosso tempo de compreensão individual e pessoal. Pensar cultura é refletir sobre o que recebemos das gerações anteriores e sobre o que deixaremos para as próximas.
Logicamente, essas duas posições são tomadas a partir da vivência no presente.
Assim como a complexidade arquitetônica e os detalhes de um templo religioso ou de uma construção secular não possuem apenas uma função prática e mecânica, a temporalidade de uma obra de arte também possui uma dimensão simbólica. Ao sondarmos pontos inalcançáveis no tempo ou no espaço, a espécie humana exerce a característica que possibilitou sua permanência neste planeta nos últimos milhares de anos: é através da abstração e da criação desse mundo simbólico que podemos transcender tempos, espaços e condições presentes.
Neste exercício de interpretação do passado como memória e compreensão do processo histórico – assim como nossas memórias possibilitam a continuidade do “eu”, o processo histórico é a memória de uma sociedade e de uma espécie que necessita da cultura para sua sobrevivência – projetar o futuro é uma necessidade básica para que o “eu”, individual ou coletivo, não colapse ante o pavor irracional da mortalidade e da efemeridade da vida e de nossas limitações. Tanto na memória quanto na projeção, não estamos lidando apenas com dados lógicos e objetivos. São justamente os processos de abstração e imaginação que decodificam e constroem o além do aqui e agora, sem os quais nós, seres dependentes de cultura, não pensamos nos estruturar no presente.
Logicamente, o exercício radical de obras de arte que se propõe a processos de construção de séculos ou milênios, assim como sociedades organizadas de formas muito diferentes do nosso modelo de individualização ocidental da cultura, são exemplos extremos para nos lembrar que não existe um esforço solitário e individual possível no processo social ou cultural.
Quando projetamos um futuro localizado em um momento diametralmente relacionado a um marco no passado, estamos fazendo um exercício crítico de comparação que gera uma série de indagações, dentre elas: quem construiu o que temos? Como essa cultura chegou até nós? O que estamos construindo para as futuras gerações? Como construiremos o canal de comunicação com as próximas gerações? Como isso influencia meu aqui e agora, assim como minhas atitudes e ações no momento presente?
Deslocando essas questões para a realidade coletiva de nossa cidade, com um município de Jaboticabal que caminha para um aniversário de dois séculos, podemos nos perguntar: onde estaremos nos próximos 200 anos? (Mil anos a menos que o proposto pela cidade alemã de Wemding e 439 anos mais rápido que a música de Cage, parte da memória oral de Anakan Buku e quase o tempo de construção da Sagrada Família de Gaudí.)
Se argumentarmos que a realidade brasileira é bem diferente da Europa ou dos povos originários, e que não estamos lidando com um exercício teórico ou uma obra de arte, pensamos propor um prazo mais confortável para nossa proposta e escolher uma área específica de atuação.
É aqui que iniciamos o entendimento de um Plano Municipal de Cultura , um documento que projeta ações para um período determinado – uma década – em um local específico – Jaboticabal – e em um determinado setor da sociedade – uma área cultural.
Para além de um grupo, governo, entidade ou instituição específica, estamos falando de algo que transcende as limitações das ações imediatas e individuais – por mais eficazes, eficientes e sinceros que sejam. O que está em discussão são propostas que podem abrir caminho para a construção, para outras pessoas e para outras realidades.
Um posicionamento de cidadãos adultos, que, ao mesmo tempo que são conscientes de suas limitações e finitude, atraem para si a responsabilidade de servir como ele entre a cultura que recebemos, criamos e transmitimos para as próximas gerações. Como toda ação democrática, um duplo ato de potência e humildade.
A proposta se coloca no "aqui" , no espaço de nossa cidade; no "agora" , em nossas ações no momento presente; e em um setor específico: o setor cultural do município. A responsabilidade recai sobre nós e refletirá para a próxima década. A escolha é nossa.
Se nos ausentarmos da responsabilidade de criar um plano municipal que projete novas realidades e possibilidades para os jovens que em breve participarão da política, da arte e da cultura – tanto os que hoje são crianças, alguns recém-nascidos, quanto os que ainda virão –, impossibilitando a criação de condições e mecanismos jurídicos e legais para que lutem coletivamente e democraticamente pelo direito à cultura, independentemente da permissão ou da vontade de alguns indivíduos.
Nos ausentarmos da possibilidade de projetar um futuro coletivo, enquanto projetamos individualmente nossos negócios e compras, é um ato de covardia. Se sabotamos nossos filhos e netos, condenamos nossa própria velhice a um triste destino e nossa memória ao esquecimento

Recebemos algo do passado: matéria moldável às nossas vontades e desejos. Nossa cultura é uma oportunidade aberta à expressão de uma geração. Podemos construir com o legado que nos foi transmitido e deixar uma herança que possibilite a interação das futuras gerações.
O que queremos para a próxima década na área artística e cultural? Quais serão as ferramentas e os espaços de debate dos jovens de hoje?
A escolha é nossa e começa no aqui e no agora.




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